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Dadão: o deus do futebol acreano
02.04.2008 - 13:32 - Acre

Ídolo. Substantivo masculino. Estátua ou simples objeto cultuado como deus ou deusa; pessoa a quem se tributa respeito ou afeto excessivo, diz o Dicionário Aurélio. Para a torcida acreana, a definição é muito mais simples. Tem apenas cinco letras. D-A-D-Ã-O.

Nascido e criado no Centro de Rio Branco, Eduardo Rodrigues da Silva Filho, hoje com 57 anos, tinha como grande incentivador de seu futebol o próprio pai. Os primeiros passos na carreira foram dados na equipe do Colégio Nossa Senhora das Dores e também no Maguary FC.

Em 20 anos de carreira, Dadão passou pelos quatro grandes clubes do Acre: AC Juventus, Rio Branco, Independência FC e Atlético Acreano. Entretanto, o melhor momento na carreira ocorreu no início dos anos 70, quando fez parte da equipe de juniores do Fluminense das Laranjeiras, clube onde chegou a ser artilheiro e campeão da Copa São Paulo de 1971.

Bastante a vontade e feliz pela lembrança, Dadão aceitou o convite da reportagem de O Rio Branco para falar da carreira, dos bons e maus momentos, inclusive do episódio que culminou com sua saída do Fluminense – RJ. O ex-craque aproveitou o bate-papo para explicar os motivos pelos quais o futebol local atravessou momentos de instabilidade, assim como perda de parte dos seus torcedores.

Por fim, o ex-meia, emocionado, lembrou com orgulho a homenagem recebida pelas festividades alusivas aos 100 anos de aniversário da Revolução Acreana, onde foi escolhido como o craque do século.

ORB – Dadão, fale um pouco da sua carreira. Como ela começou e quem formulou o convite para você iniciar sua trajetória dentro dos gramados?
Primeiro quero dizer que é um grande prazer poder falar com você, Façanha e, ao mesmo tempo, agradeço a gentileza deste espaço para eu comentar um pouco da minha trajetória pelos gramados.
Voltando a sua pergunta, tenho a dizer que meus primeiros passos na vida futebolística foram dados na equipe do Colégio Nossa Senhoria das Dores [hoje Colégio Meta] e na equipe amadora do Maguary FC. Lembro-me que naquela época, através do educador Elias Mansour, surgiu a idéia de organizar uma equipe de futebol que tivesse não apenas representatividade legal, mas que viesse das massas. Então, a partir deste pensamento, acabou surgindo nos primeiros meses do ano de 1966 o Atlético Clube Juventus.
Lembro-me, ainda, que no seu primeiro ano de existência não tive o privilégio de vestir a camisa do clube, pois alguns dirigentes achavam que eu era muito jovem para tal desafio. Então, a convite de Campos Pereira, Jangito e Pedro da Burra acabei indo disputar o Estadual daquele ano pelo arquirrival Rio Branco. Um ano depois, mais maduro, retornei ao Juventus, onde fique até 1970.

ORB - Como surgiu o convite para jogar nas categorias de base do Fluminense?
O João Carneiro era amigo do Tião Araújo, um acreano que era preparador físico do Fluminense e também da Seleção Brasileira. Certa vez, João Carneiro me formalizou o convite para realizar testes no clube carioca. Arrumei as malas e fui para as Laranjeiras, isso no início dos anos de 1970. Foram dois anos de um “casamento” feliz.

ORB – O que realmente ocorreu para você não vingar no Fluminense, pois todos falavam que sobrava talento em você?
Dadão – Não fiquei no Fluminense por causa de um desentendimento entre meu pai e os diretores do clube. Houve divergências na hora de assinar o meu contrato de trabalho, pois o meu pai reivindicava uma compensação salarial, a época, prometida pelos cartolas tricolores aos garotos do time de juniores.
Só tenho a dizer que foi uma pena todo àquele episódio, pois já treinava entre os profissionais e tinha grande chance de brigar por uma posição entre eles, numa equipe formada por Samarone, Lula, Flávio, Marco Antonio, Galhardo, Félix e outros.

ORB - O seu grande mérito no Fluminense foi ser o artilheiro da equipe na Copa São Paulo de Juniores de 1971.
Dadão – Realmente. Fiz um excelente torneio, pois além de ajudar o Fluminense a ser campeão invicto da Copa São Paulo, numa final contra o Botafogo, ainda tive a felicidade de ser o artilheiro do clube na competição.

ORB – Frustradas as negociações pela sua permanência no Fluminense você acabou indo para o Itabaiana - SE. Um ano depois chegou a jogar no Madureira e logo depois no Bangu até o retorno ao futebol local. Fale um pouco dessa situação.
Dadão – Verdade. Fui para o Itabaiana - SE, onde conquistei um vice-campeonato. Porém, a convite do bicampeão mundial Vavá, admirador de meu futebol, aceitei o convite para jogar no futebol carioca, mas agora pelo Madureira e logo depois na equipe do Bangu. Logo depois, o próprio Vavá tentou negociar minha transferência para o futebol espanhol, precisamente para o Córdoba, isso em 1975. Porém, antes, ele já havia aberto as portas para uma transferência minha para o América do México. Resolvi não aceitar as duas propostas, pois eu já tinha família e existia o receio de não dar certo.

ORB - Além dessas propostas, você também teve a oportunidade de jogar em grandes clubes do futebol do norte. Quais?
Dadão – Sim. Depois de todos esses percalços tive propostas para jogar no Clube do Remo e no Paysandu, do Pará, no Nacional e no Rio Negro, do Amazonas, e ainda no Moto Clube e no Ferroviário, de Rondônia. De maneira que não faltaram oportunidades para eu jogar em outros centros.

ORB – O fato de não ficar no Fluminense foi algo frustrante na sua carreira?
Dandão – Sim. O fato de não permanecer no Fluminense me deixou muito frustrado, pois sem modéstia nenhuma, eu tinha qualidade para jogar num grande clube. O próprio Vavá, certa vez, enviou-me uma carta, onde afirmava que não tinha dúvida que meu futebol poderia ter vingado na Espanha. O ex-campeão mundial também declarou na correspondência que, em menos de um ano, eu poderia ter conseguido uma transferência para um grande clube espanhol.

ORB – A família, os estudos e o próprio Atlético Clube Juventus ajudaram a superar o trauma da não-permanência no Fluminense?
Dadão – Sem dúvida. Isso tudo que você falou foi meu refúgio para esquecer a minha passagem pelo Fluminense. Um dos elementos importantes foi quando ganhei minha família. A partir daí minha responsabilidade não era somente comigo, mas também com a minha esposa e o meu filho. Outro aspecto importante para superar este trauma foram os estudos [Dadão é formado em Economia e Direito pela Universidade Federal do Acre]. Agradeço muito as orientações do professor Elias Mansour, um educador que era preocupado não apenas em levar glorias a equipe do AC Juventus, mas também na formação intelectual de seus atletas.
Portanto, quero deixar claro aos meus admiradores que uma das maiores conquistas na minha vida foi à conclusão de dois cursos superiores.

ORB – Você jogou ao lado de diversos craques. Ora a favor, ora contra. Porém, também enfrentou marcadores implacáveis, sempre de frente. Como era tudo isso?
Dadão – Realmente. Tive a oportunidade de enfrentar muitos zagueiros viris, mas acima de tudo leais e de boa técnica, como foi o caso da dupla formada por Deca e Palheta. A única lesão grave na minha carreira ocorreu precisamente no ano de 1979, num amistoso na cidade de Boca do Acre, quando defendia as cores do Atlético Acreano. O resultado foi um ano inativo, devido uma entrada desleal de um adversário. Porém, o grande prazer na vida futebolística foi jogar ao lado de grandes craques. Muito deles, ajudando e muito a minha vida dentro dos gramados, como foi o caso de Mauro, Antonio Maria, Bico-Bico, Eró, Tadeu Belém, Escapulário, Mariceudo, Carlinhos Bonamigo, Emilson Brasil, Julião, Mário Vieira, Milton, José Augusto, Xepa, Illimani e tanto outros. Entre os que antecederam a minha geração ainda tive o privilégio de jogar ao lado de Toca e Airton, dois grandes craques do futebol local.

ORB – Você, como o Rei Pelé, decidiram pendurar as chuteiras ainda no auge da carreira e nos braços da galera. Fale disso.
Dadão – Tinha 36 anos e o jogo de despedida foi uma decisão contra o Rio Branco FC. O ano era 1986 e o resultado do jogo, apesar da perda do título por parte do AC Juventus, por 2 a 0, não apagou a minha idéia de aposentadoria.

ORB – Você se arrependeu de encerrar a carreira aos 36 anos.
Não. Eu havia me preparado para tudo aquilo, pois meu objetivo era encerrar a carreira nos braço do torcedor e jogando bem, apesar de reconhecer que poderia ter jogado mais umas quatro temporadas.

ORB – Desde criança você teve oportunidade de observar grandes craques e depois ser um deles. Hoje, para muitos, o futebol local passa por uma crise de valores. Qual sua opinião em relação a isso?
Dadão – É como eu sempre falo, não com objetivo de degrenir a imagem de nosso futebol, pelo contrário, mas dentro da atual realidade. O que ocorreu é que venho de uma geração de bons jogadores que antecedeu uma geração de craques lideradas por Boá, Cidico, João Carneiro, Pedrito, Mozarino, Airton, Tinoco. Infelizmente, após a minha geração, não houve uma renovação de grandes jogadores. Por isso, nosso futebol passa por certa dificuldade, não ocorrendo o mesmo na parte organizacional, onde estamos criando uma infra-estrutura moderna com dois estádios e uma federação bem equipada na sua parte organizacional.

ORB – Você acredita que o caminho para resgatamos o futebol artes e de bons espetáculos se passa pelo fortalecimento de nosso futebol de base?
Dadão – Exatamente. É preciso que haja um trabalho direcionado as bases e realizado por bons profissionais e dispostos a identificar o que ainda existe de talento. O Brasil, por exemplo, demorou muito para identificar sua nova safra de craques, pois foram inúmeras copas do mundo sem títulos, uma vez que não tínhamos grandes jogadores capaz de desequilibrar um jogo a nosso favor, como Romário, Ronaldo, Ronaldinho, Rivaldo e outros.

ORB – assim como Pelé e Zico, você também tentou colocar seus filhos no futebol. Como foi essa experiência?
Dadão – Tentei sim. Meu filho mais novo passou quatro anos no Fluminense, mas não vingou. Já o meu filho mais velho, o Edu, teve uma experiência no Guarani de Campinas, mas não obteve sucesso. Porém, não posso ficar melindrado, pois eles tentaram. Infelizmente, não deu certo e no futebol tem disso.

ORB – A maior honra na sua vida foi o reconhecimento do poder público, quando escolheu você entre as cem personalidades acreanas do século?
Dadão – Sem dúvida. Eu já tinha o reconhecimento da imprensa e do torcedor dos quatro grandes clubes do Estado. Era necessário algo mais e isso ocorreu com o título dando pelo poder público, homenagem essa que me envaideceu e muito. Agradeço muito ao ex-governador Jorge Viana pela lembrança.

ORB - A infra-estrutura de dois estádios poderá representar dias melhores para o nosso futebol?
Dadão – Certamente. A partir do momento que o ex-governador Jorge Viana construiu o estádio Arena da Floresta, ele abriu novas perspectivas de vida para o crescimento de nosso futebol, assim como de nossos jogadores. O futebol hoje é globalizado e o estádio Arena da Floresta poderá ser palco de jogos importantes, pois sua infra-estrutura é fantástica, credenciando-a para sediar grandes espetáculos. Ou seja, em linhas gerais, o estádio poderá contribuir de uma maneira ou outra para a realização de intercâmbio.

ORB – Você falou anteriormente que o aspecto educacional foi fator importante para o sucesso de sua vida fora dos gramados. Você acredita que os clubes deveriam investir neste lado da política educacional para formar não apenas o atleta-jogador, mas também um atleta capaz de conquistar sua independência profissional fora dos gramados?
Dadão – Sem dúvida nenhuma. O jogador só cresce dentro do futebol se tiver talento, disciplina e orientação. O talento ele tem, mas a disciplina é algo que precisará ser trabalhada a cada dia. Sempre é bom lembrar aos desavisados que boêmia e futebol não casam bem. Agora, se o atleta está realmente comprometido com sua carreira, ele precisará também de uma formação acadêmica [superior], pois assim estará bem mais preparado na hora de discutir seu futuro profissional, seja no futebol ou fora dele.

ORB – Qual a mensagem que o ex-jogador Dadão deixa aos desportistas?
Dadão - Minha mensagem é que o torcedor continue prestigiando o nosso futebol, pois ele é bom e tem perspectiva de crescimento. O poder público, desde administração do Jorge Viana, tem feito sua parte, não sendo diferente neste governo do Binho Marques. Outro fator importante é que nossa infra-estrutura é boa. De maneira que vejo com bons olhos todo o incentivo que o governo vem proporcionando ao desporto, não apenas no futebol, mas em todas as modalidades esportivas.

NOTA

SELEÇÃO BRASILEIRA

Dadão chegou a ser convocado para disputar o Torneio de Cannes, na França, em 1971, com a amarelinha, mas a diretoria do Fluminense acabou vetando a participação do acreano, alegando que o mesmo passaria a atuar na equipe de profissionais.

FRASES

“Hoje o futebol não se prende somente ao jogo, ele é um esporte onde existe a aplicação de bilhões de dólares por parte das empresas multinacionais. Portanto, é necessário que o jogador de futebol tenha essa visão, pois ele é parte deste produto”.

“Se não ganhei muito dinheiro no futebol, ganhei muitas amizades”.

“A grande vitória do futebol acreano foi a construção do estádio Arena da Floresta, pois muitos prometeram a obra, mas ela só veio com o dinamismo da política do ex- governador Jorge Viana”.

DADÃO – EX-CRAQUE DO FUTEBOL ACREANO

TETRA

Apesar ter vestido as camisas do Atlético, Rio Branco e Independência FC, Dadão jamais conquistou um título por essas agremiações. Em compensação foi tetra com o AC Juventus: 69, 75, 76 e 84.

Dadão, Emilson e Carlinhos Bonamigo: reforços do Juventus na década de 70 .

FICHA TÉCNICA
NOME: EDUARDO RODRIGUES DA SILVA FILHO
NASCIMENTO: 18 DE JULHO DE 1950
CLUBES: RIO BRANCO FC, AC JUVENTUS, ATLÉTICO, INDEPENDÊNCIA, FLUMINENSE-RJ, ITABAIANA –SE, MADUREIRA – RJ E BANGU – RJ.
TÍTULOS: TAÇA CIDADE SP DE JUNIORES INVICTO, EM 1971, COM O FLUMINENSE, JUVENTUS – 69, 75, 76, 84.
ESTADO CIVIL: CASADO COM A SENHORA VERALUCIA SILVA FILHOS: EDUARDO, EVERTON, ERICA.
FORMAÇÃO ACADEMICA: ECONOMIA -82 E DIREITO-95, UFAC.

Fonte: Jornal O Rio Branco
 
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